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Perícia de Engenharia: o que é, como funciona e por que a análise de nexo causal é decisiva

Quando surgem infiltrações, fissuras, desplacamentos de revestimento ou falhas estruturais em uma edificação, a primeira reação costuma ser identificar “quem é o responsável”. É justamente nesse tipo de situação que a perícia de engenharia se torna necessária, pois a simples constatação do problema não é suficiente para definir responsabilidades. Construtora? Condomínio? Proprietário? Projetista?

No entanto, a resposta técnica não pode ser baseada em impressões visuais ou constatações superficiais. A apuração correta exige método, investigação e fundamentação normativa.

A perícia de engenharia é a atividade técnica disciplinada pela ABNT NBR 13752:2024, cuja finalidade é averiguar fatos, apurar causas e fornecer base técnica para tomada de decisão judicial ou extrajudicial.

Neste artigo você entenderá:

  • O que é perícia de engenharia segundo a norma técnica;
  • A diferença entre perícia e inspeção predial;
  • O que é análise de nexo causal;
  • Como deve ser estruturado um laudo pericial;
  • Quais erros tornam uma perícia tecnicamente frágil.

O que é Perícia de Engenharia segundo a NBR 13752

A ABNT NBR 13752 define perícia como atividade técnica realizada por profissional legalmente habilitado, desenvolvida de forma fundamentada e em observância aos requisitos normativos, com a finalidade de:

  • Averiguar e esclarecer fatos;
  • Constatar o estado do objeto pericial;
  • Verificar atendimento a requisitos e padrões;
  • Apurar o nexo causal de determinado evento;
  • Avaliar bens, custos ou direitos.

Portanto, a perícia de engenharia não é apenas uma vistoria. Trata-se de uma atividade investigativa estruturada, que exige método técnico, raciocínio lógico-dedutivo e fundamentação normativa.

Seu campo de aplicação abrange:

  • Processos judiciais;
  • Procedimentos arbitrais;
  • Atos administrativos;
  • Demandas extrajudiciais.

Diferença entre Perícia, Inspeção Predial e Avaliação

Um dos erros mais comuns no mercado é a confusão entre diferentes atividades técnicas.

Perícia de Engenharia

É atividade investigativa voltada à apuração de fatos e, principalmente, à identificação do nexo causal. Pode envolver:

  • Vistoria de constatação;
  • Vistoria de conformidade;
  • Análise de causalidade;
  • Avaliação técnica de custos ou danos.

Tem finalidade probatória e pode subsidiar decisões judiciais.

Inspeção Predial

Regulamentada pela ABNT NBR 16747, a inspeção predial possui natureza distinta.

Ela é uma avaliação predominantemente sensorial, voltada à:

  • Classificação de irregularidades;
  • Diagnóstico geral do estado da edificação;
  • Planejamento de manutenção.

Não tem como objetivo apurar responsabilidade ou estabelecer nexo causal.

Uma analogia didática frequentemente utilizada é a do “clínico geral”: a inspeção identifica sintomas e orienta a manutenção, enquanto a perícia atua como investigação aprofundada, buscando a causa do problema.

Avaliação

É espécie de perícia focada na determinação de valores, custos ou indicadores econômicos, frequentemente utilizada em partilhas, indenizações e desapropriações.

O que é Nexo Causal e por que ele é decisivo

Um dos pilares da perícia de engenharia é a análise de causalidade.

Nexo causal é o vínculo fático que conecta o efeito à causa.

Em termos práticos, não basta identificar uma infiltração. É necessário investigar:

  • Qual foi o mecanismo que gerou a manifestação;
  • Se a origem é endógena (projeto ou execução);
  • Se decorre de falha de uso ou manutenção;
  • Se há influência de agentes externos.

Sem essa investigação, qualquer conclusão sobre responsabilidade será frágil.

A metodologia prevista na NBR 13752 exige:

  1. Anamnese técnica;
  2. Coleta documental (projetos, memoriais, contratos);
  3. Vistoria detalhada;
  4. Quantificação das ocorrências;
  5. Desenvolvimento de explicação técnica do mecanismo;
  6. Classificação das ocorrências quanto à origem e natureza.

Vício, Defeito, Falha e Anomalia: distinções essenciais

A norma estabelece conceitos fundamentais que impactam diretamente a responsabilização.

  • Anomalia: irregularidade ou exceção a padrão estabelecido.
  • Falha: ocorrência que compromete o desempenho.
  • Defeito: anomalia que afeta solidez, segurança ou saúde.
  • Vício: anomalia ou falha que torna o produto inadequado ao fim a que se destina.

A distinção mais relevante na prática pericial é entre:

Vício Endógeno

Decorre de erro de projeto, execução ou material. Está vinculado à entrega da obra.

Falha de Uso ou Manutenção

Relacionada à operação inadequada ou ausência de manutenção.

Dados técnicos apresentados em estudos de engenharia diagnóstica indicam que parcela significativa dos litígios imobiliários decorre de falhas de manutenção, não de vícios construtivos.

A perícia adequada deve identificar essa diferença com precisão.

Estrutura obrigatória de um Laudo de Perícia de Engenharia

A NBR 13752 estabelece requisitos formais e técnicos mínimos para o laudo.

Entre os elementos essenciais, destacam-se:

  • Identificação do solicitante e do objeto;
  • Objetivo e finalidade da perícia;
  • Pressupostos e condições limitantes;
  • Metodologia adotada;
  • Documentos analisados;
  • Descrição detalhada das constatações;
  • Análise de nexo causal;
  • Classificação das ocorrências;
  • Relatório fotográfico;
  • Conclusões fundamentadas;
  • Assinatura e registro profissional.

Nos processos judiciais, os quesitos devem ser transcritos e respondidos de forma objetiva.

A norma também enfatiza que o laudo deve ser técnico, claro e fundamentado, evitando subjetividade excessiva.

Papel do Perito Judicial

O perito judicial é profissional legalmente habilitado, nomeado para auxiliar o julgador na compreensão técnica dos fatos.

Sua atuação deve ser:

  • Independente;
  • Objetiva;
  • Fundamentada;
  • Isenta de juízo de valor jurídico.

A norma é expressa ao estabelecer que o perito não deve emitir julgamento sobre direitos das partes, mas apenas fornecer base técnica.

Entre suas atribuições estão:

  • Análise técnica do objeto;
  • Resposta aos quesitos;
  • Esclarecimentos complementares;
  • Apresentação de hipóteses alternativas quando aplicável.

Papel do Assistente Técnico

O assistente técnico é indicado por uma das partes para acompanhar a perícia.

Suas funções incluem:

  • Orientação técnica da parte;
  • Formulação de quesitos;
  • Acompanhamento de diligências;
  • Elaboração de parecer técnico sobre o laudo oficial.

A manifestação formal do assistente técnico recebe a denominação de parecer técnico.

Erros mais comuns em perícias mal conduzidas

As apresentações técnicas analisadas apontam falhas recorrentes que comprometem a qualidade da prova:

1. Confusão entre inspeção e perícia

Utilizar metodologia de inspeção predial para apurar responsabilidade judicial é tecnicamente inadequado.

2. Ausência de análise de causalidade

Limitar-se à constatação visual do sintoma, sem investigar o mecanismo de origem.

3. Subjetividade excessiva

Conclusões baseadas em opinião pessoal, sem metodologia demonstrada.

4. Falta de fundamentação documental

Não analisar projetos, contratos e normas aplicáveis.

Essas falhas podem gerar imputações indevidas de responsabilidade e decisões distorcidas.

Por que a metodologia correta evita injustiças

A perícia de engenharia bem estruturada não serve para “atribuir culpa”, mas para esclarecer tecnicamente os fatos.

Ao distinguir vício construtivo de falha de manutenção, o trabalho pericial:

  • Evita condenações indevidas;
  • Protege direitos legítimos;
  • Orienta reparos adequados;
  • Reduz conflitos técnicos.

A precisão técnica reduz a subjetividade e fortalece a justiça da decisão.

Conclusão

A perícia de engenharia, conforme disciplinada pela ABNT NBR 13752:2024, é atividade técnica investigativa que exige método estruturado, análise documental, vistoria minuciosa e desenvolvimento de raciocínio lógico-dedutivo para identificação do nexo causal.

Ela não se confunde com inspeção predial e não pode ser reduzida a levantamento sensorial.

O laudo pericial bem elaborado não julga direitos, mas fornece base científica sólida para que decisões sejam tomadas com equilíbrio e precisão.

Em situações envolvendo vícios construtivos, disputas condominiais ou danos estruturais, a metodologia aplicada é determinante para a qualidade da prova técnica.